sábado, 3 de novembro de 2012

Lucernário, a linguagem fascinante e contagiante do mistério.

                                                 Pe. Joaquim Cavalcante




Era a noite do dia 27 de outubro. Mais de 40 jovens se inscreveram para participar do Acampamento com os Universitários. Um misto de inquietação, aventura, sonhos, lazer, silêncio, oração e contemplação.
Quando o sol recolhia seus últimos raios, nós deixávamos o ruído da cidade de Itumbiara rumo a uma pequena e silenciosa chácara. Tudo era festa, alegria, expectativa e novidade. A tagarelice dos universitários se unia à voz das cigarras e dos pássaros formando, assim, uma sinfonia de vozes no colo da noite que lentamente se tornava mais escura.
O momento de armar as tendas foi uma aventura inédita.  Festa para uns, dificuldades para outros, interação e solidariedade entre todos. Tudo ia ficando melhor com a presença da Irmã Maria Eugênia.
Em pouco tempo, o terreno da chácara ficou povoado de tendas coloridas evocando o cenário dos acampamentos do povo de Israel durante a travessia do deserto rumo à terra prometida.
Conta-nos o Livro do Êxodo que “tendo saído de Sucot, acamparam-se em Etam, à entrada do deserto. E o Senhor estava diante deles, de dia numa coluna de nuvem, para lhes mostrar o caminho, e de noite numa coluna de fogo para os iluminar” (Ex 13, 20-21).
Aquela coluna de fogo estava bem refigurada durante a celebração do lucernário. O lucernário é uma liturgia marcada pela luz seguida da proclamação da Palavra de Deus. Isto é, seguida da Lectio Divina. Que, por sua vez,  é um jeito orante de ler, meditar e contemplar a palavra de Deus. É uma antiga forma de oração centrada na leitura da Palavra de Deus. LECTIO em latim quer dizer leitura. O lucernário é um rito que fala pela linguagem da luz.
A luz na liturgia nos remete para o mistério da criação. Na narrativa criacional do Livro do Gênesis, a luz é o primeiro elemento que Deus cria depois do céu e da terra. “Disse Deus, haja a luz e houve a luz. Deus viu que a luz era boa, e Deus separou a luz e as trevas” (Gen 1,3-4).
A luz é a superação das trevas. Por isso ela está associada a Cristo, luz do mundo e à fé que ilumina nossa vida. Por meio da fé, vemos a luz que é Cristo e iluminamos o mundo com Cristo.
O lucernário nos remete para o coração do mistério que é Deus, a luz em plenitude. Muitos jovens vivenciaram com profundidade e seriedade o rito do lucernário. Fiquei edificado e dou testemunho do que vi.  Alguns contemplavam a chama da vela com tamanha reverência que pareciam ter entre as mãos o esplendor do eterno e inefável mistério.
Estou convicto de que o jovem que busca as coisas do alto sabe contemplar as coisas da terra e tirar delas grandes lições para sua vida. Contemplar é a forma profunda de expressar os sentimentos que não sabemos verbalizar. Há sentimentos que só expressamos mediante o silêncio da fé. No silêncio da fé e da contemplação dizemos a Deus o que já fomos, o que fizemos e o que somos e ouvimos Deus dizer no intimo do nosso  coração: “meu filho, minha  filha, para mim importa o que você será a partir desse momento. Eu preciso de você, eu conto com você”.
No mundo, há muitos inquietos e falantes, porque são poucos os que são poucos os que sabem se expressar com a linguagem do silêncio da fé. Os que não sabem fazer silêncio normalmente se ocultam e se escondem nos ruídos e gritarias. Na verdade, somos filhos e frutos de uma sociedade frenética. Por isso mesmo, urge resgatar a mística do silêncio e da contemplação. Parabéns aos que já iniciaram essa divina aventura!


quinta-feira, 28 de junho de 2012

Confraternização SEGUE-ME

Confraternização com a Equipe do Segue-me das Paróquias Cristo Rei e São Pedro e São Paulo, no dia 27 de Junho de 2012 na casa Paroquial...



 Equipe Dirigente Paróquia de Cristo Rei
 UMA EQUIPE QUE SOUBE DOAR SEU SERVIÇO EM FAVOR DESTA COMUNIDADE. MEUS SINCEROS AGRADECIMENTOS...
 Equipe Dirigente - Paróquia Cristo Rei e Paróquia São Pedro e São Paulo
 QUE DEUS OS CONTINUE ABENÇOANDO E DANDO FORÇAS PARA CONSTRUÇÃO DESSE TRABALHO...
 EQUIPE DIRIGENTE PARÓQUIA SÃO PEDRO E SÃO PAULO... MINHA GRATIDÃO..
 EQUIPE DIRIGENTE PARÓQUIA CRISTO REI... OBRIGADO PELO APOIO...
 

É IMENSA A ALEGRIA, TER ESTADO COM VOCÊS DURANTE TODO ESSE TRABALHO...
 


UMA FAMÍLIA UNIDA PARA COMPARTILHAR O QUE DE MAIS BELO HÁ NO MUNDO: O AMOR...
 

 OBRIGADO A TODOS PELA DEDICAÇÃO E MINHA ADMIRAÇÃO PELO TRABALHO PRESTADO AOS JOVENS E A ESSA COMUNIDADE...

 A CASA PAROQUIAL TORNOU-SE UM PEDACINHO DO CÉU COM A PRESENÇA DE VOCÊS.

A FORÇA QUE NOS MOVE É O AMOR, A CORAGEM E A FÉ, QUE NOS FAZ ACREDITAR EM CRISTO, NOSSO SALVADOR...
 


 OBRIGADO JOVENS: Lucas, Matheus, Max, Cleverson, Tácio, Andressa e Rafael... Que Deus os continue abençoando
 UMA JUVENTUDE SADIA, UNIDA E SEGUIDORA DE CRISTO ORNAMENTA O MUNDO E TORNA MAIS JOVEM A IGREJA DO SENHOR.
 OBRIGADO A TODOS PELA DEDICAÇÃO E MINHA ADMIRAÇÃO PELO TRABALHO PRESTADO AOS JOVENS E A ESSA COMUNIDADE..

 Pe. Vítor - Pároco da Paróquia de Cristo Rei  
OBRIGADO PE. VITOR PELA DEDICAÇÃO E APOIO..


sábado, 23 de junho de 2012

A salvação é um dom de Deus


A  pedido dos amigos e visitadores deste blog segue a entrevista que dei ao repórter Erivaldo Maximino representante de um jornal local, há algum tempo.
Pantocrátor - Igreja Santo Pedro & São Paulo - Itumbiara, Goiás, Brasil

A salvação é um dom de Deus’

FN: O Padre Joaquim Cavalcante, da Paróquia São Pedro e São Paulo, recebeu convite e aceitou integrar o quadro de colaboradores do FN, escrevendo sobre fé e vida, brindando os leitores com seu vasto conhecimento em teologia, filosofia e outras áreas. Na entrevista a seguir, procuramos mostrar um pouco do perfil do padre e o que ele pensa sobre diversos assuntos. Confira.
FN: Depois do curso seminarístico no Brasil, o senhor fez o mestrado no Pontifício Ateneu Santo Anselmo e o doutorado em teologia na Pontifícia universidade Gregoriana em Roma. O que é a teologia?
Padre Joaquim:
Estudar a teologia significa entrar em contato com uma ciência. A teologia, antes de tudo, é uma ciência. Santo Agostinho a definiu como sendo a ciência que se ocupa do estudo sobre Deus. Ela é a ciência da fé. O estudo sobre Deus só pode ser teologia se ele partir da experiência da fé. A base de toda a teologia é a revelação de Deus em Jesus Cristo. Por isso as fontes do estudo desta ciência são a Sagrada Escritura, a Tradição Patrística e litúrgica e os ensinamentos do Magistério da Igreja. Por isso entendo que a teologia é a ciência que emana da compreensão crítica do conteúdo da fé e da sistematização do pensar sobre Deus.
FN: Em que ela pode ajudar as pessoas?
Padre Joaquim:
Entendo que a teologia pode ajudar as pessoas porque, pensando o mistério eterno de Deus Pai e Criador e as realidades futuras, ela é a ciência que se ocupar com o mistério da vida no hoje da história. Seria um equívoco pensar a vida para além da morte ignorando a vida aqui e agora. Como toda ciência, a teologia deve pensar a vida no planeta e colocar-se a serviço dela em todo cosmos. Para mim, a ciência que não se coloca a serviço da vida é um culto ao abstrato, ou a ela mesma e, nesse caso, não faz sentido existir. O grito dos que sofrem por ter sua vida e dignidade ameaçada deve despertar no teólogo uma hermenêutica do reino que o torna mais comprometido com as vítimas do poder dominante que gera senhores, escravos e miseráveis. A teologia como ciência da sistematização da fé não pode ignorar nada que se refere a Deus e ao ser humano.
FN: O senhor continua estudando, não se cansa?
Padre Joaquim:
Sim, continuo. Estudar a teologia é, para mim, mais que um gosto pessoal, é uma necessidade que se me impõem. Além disso, penso que ninguém deve se cansar daquilo que o fascina. O mistério de Deus, o reino, a Igreja, o ser humano, tudo aquilo do qual a teologia se ocupa, me fascina. O teólogo deve pensar essas realidades contemplando o esplendor da beleza eterna que há em cada uma delas. Pena que outras responsabilidades inerentes ao meu ministério não me permitem dedicar-me mais à teologia como eu gostaria e como ela exige. A teologia é para mim a ciência da fascinação.
FN: Como o senhor aplica seus conhecimentos de Filosofia, Teologia e outras especializações no seu trabalho, enfim,  como é ser teólogo e pároco?
Padre Joaquim:
Esta pergunta não é fácil. Ela me reporta ao que antes afirmei. A teologia como ciência deve estar a serviço da vida, o teólogo deve estar a serviço da vida, o pároco deve estar a serviço da vida. O teólogo não deve deter para si a ciência teológica, assim como o pastor não deve reter o pasto em detrimento do rebanho. Sinto sobre os meus ombros a responsabilidade de socializar a teologia. Tenho o grave dever de torná-la acessível aos que por ela demonstram interesse e de colocar-me a serviço das Dioceses que solicitam minha ajuda. Na impossibilidade de dedicar-me mais à construção do saber e da produção teológica, peço a Deus a graça do discernimento para deixar a teologia iluminar meu agir pastoral nesta comunidade paroquial. Sabemos que ninguém serve bem a dois senhores. Por limitação minha, tenho deixado muito a desejar tanto uma parte como outra.
FN: Para exercer a função de padre é obrigatória a formação em Teologia?
Padre Joaquim:
Considerando as variantes curriculares, de seminários para Institutos de Teologia, ou Universidades e de um País para outro, além da graduação em Filosofia, a Igreja pede ao candidato que deseja ser padre pelo menos quatro anos de estudo das ciências teológicas. Acho pouco, mas se levado a sério esse tempo de estudo, dá um bom conhecimento da teologia e ajuda no exercício das atividades pastorais.
FN: Como o senhor divide seu tempo entre padre, professor e ao mesmo tempo buscando novas especializações, enfim, qual é a rotina do Padre Joaquim Cavalcante? 
Padre Joaquim:
Minha vida é muito simples. Começo o dia fazendo uma caminhada e depois rezando a chamada “laudes” (Oração da manhã do Ofício Divino) e meditando os textos litúrgicos de cada dia, ou fazendo uma caminhada e depois rezando. Na oração peço sempre ao Senhor para fazer de minha pessoa um instrumento dele junto a cada um que vou receber. Tomo café e vou para o escritório e começo atender aos que me procuram. Paro ao meio dia, almoço e recomeço o atendimento às 14h. Às vezes deixo para caminhar no final do dia. Encerro jornada celebrando a Eucaristia às 19h. Quando posso participo de alguma reunião (e reunião é o que não falta), gosto de assistir o noticiário, leio alguma coisa, preparo aulas, homilias, conferências, cursos, respondo cartas etc... Gosto de tomar um lanche fora, sobretudo um açaí na tigela.
FN: Como o senhor vê esse despertar de Itumbiara na educação, como por exemplo a vinda de novas faculdades e agora o CEFET?
Padre Joaquim:
Toda universidade deve sentir-se comprometida com o desenvolvimento da comunidade e a socialização do saber onde ela se faz presente. Vejo com grande expectativa a vinda de mais cursos e mais faculdades para cá. Isso pode contribuir com o desenvolvimento para nossa região, só depende da filosofia e da política de vida dessas faculdades. Faço votos que os jovens e as pessoas de baixa renda tenham acesso ao saber científico. Espero que não aconteça o mesmo em relação à construção da nova sede da UEG com tantos cursos prometido. Nesse sentido há uma grande frustração. É falta de elegância prometer e não cumprir. Quem prometeu devia sentir-se no dever de se redimir frente à opinião pública. Ninguém gosta de ser enganado. Devo dizer que muitos sentimo-nos enganados por promessas até agora não cumpridas. Isso afronta nossa dignidade e depõe contra quem prometeu.
FN: Padre Cavalcante, quais temas o sr. vai abordar na coluna e o que os leitores do FN podem esperar?
Padre Joaquim:
São temas simples e voltados para a fé e a vida. Não vou prometer grandes coisas. Sou simples, a vida também o é. Espero que os leitores possam me ajudar propondo questões de interesse relevante e que eu possa contribuir na reflexão.
FN: Itumbiara pode ser considerada uma cidade eclética, sob o ponto de vista religioso, pois aqui existem muitas religiões, relativamente convivendo bem. Como o senhor vê isso?
Padre Joaquim:
Isso é positivo. Seria desconcertante se nossas diferenças religiosas nos separassem. Penso que devemos fazer tudo para superar todo e qualquer tipo de prosetilismo. As diferenças devem ser vistas como possibilidade para o enriquecimento e não para a divisão. Parece-me contraditório ao princípio servir-se dela para denegrir o outro. A unidade querida por Jesus vai sendo construída na diferença ,no respeito, e no amor recíproco.
FN: Como a Igreja Católica, ou o sr. especificamente, vê o avanço de outras religiões, inclusive o crescimento não apenas na evangelização e conquista de novos fiéis, mas também uma postura digamos empresarial de algumas religiões? Padre Joaquim: Vejo tudo isso como um fenômeno dos tempos atuais. Com a proliferação do proselitismo religioso, estamos vivendo um verdadeiro êxodo dentro do próprio cristianismo. Esse tipo de comportamento é digno de compaixão. Ele perverte todo o sentido do Evangelho e da missão que Jesus confiou aos doze. O acentuado discurso de uma teologia da retribuição traz no seu bojo um forte interesse mercantil. Nesse caso acho tão frágil quem prega como a pessoa que acredita nesse tipo de pregação. Isso pode contribuir para superar a miséria financeira de alguns espertalhões, mas não contribui para que o mundo seja melhor.
FN: Nas festas de sua paróquia, a São Pedro e São Paulo, a venda de bebidas alcoólicas é proibida. Por quê?
Padre Joaquim:
Vou começar dando três razões porque nossa Paróquia não vende bebida alcoólica. Primeiro: parto do principio bíblico paulino “se alguém está em Cristo é uma nova criatura” (2Cor.5,17). O mesmo Apóstolo nos ensina que nem tudo que é permitido convém ser praticado. A vida cristã é a vida em Cristo. Quem está em Cristo não precisa de álcool para se alegrar e ser feliz. Segundo: sabemos que tudo que é ingerido e causa alteração no sistema nervoso é considerado droga (CNBB, Manual da CF 2001, p. 72). Álcool não causa alteração nenhuma? Terceira: uma estatística recente diz que o álcool causou 80% dos homicídios em Goiânia (cf. Diário da Cidade 15.05.03,p 6). Muitos podem discordar disso, mas não terão razões para dizer que não vendendo bebidas alcoólicas, contribuímos com a desgraça das pessoas e das famílias. Não resolvemos o problema do químico-dependente, mas não contribuímos com o vício de ninguém. Gostaria de dizer que nunca proibi. Nunca baixei decreto proibindo a venda de bebida alcoólica. Simplesmente fiz uma proposta no meu discurso de posse. A comunidade acolheu e levou a sério. Tantas outras acolheriam com a mesma seriedade se seus pastores tomassem essa iniciativa. Sei que alguns começaram, mas não continuaram porque os coordenadores da festa eram dados ao álcool, nesse caso, torna-se difícil. Contudo, estou certo de que um pastor deve saber o que é melhor para seu rebanho. Somos uma comunidade de baixa renda, mas a renda da venda de bebidas alcoólicas não nos faz falta. Tudo o que propusemos fazer tem sido feito sem precisar vender um copo de cerveja. A começar pela construção da nossa igreja paroquial.
FN: O que a pessoa deve fazer para conseguir a salvação?
Padre Joaquim:
Absolutamente nada. A salvação não depende do nosso esforço. Ela é expressão suprema da gratuidade de Deus que, na ação do seu Espírito, em Cristo nos reconciliou. A salvação não é uma conquista por mérito humano, é dom de Deus. A única coisa que depende da pessoa é aceitar e acolher esse dom. Santo Agostinho dizia: “aquele que nos criou sem a nossa participação, não quer nos salvar sem a nossa aceitação”.
FN: O sr. é apontado por algumas pessoas como um padre austero. A que o sr. atribui isso?
Padre Joaquim:
Toda vez que alguém me faz esta pergunta, dou sempre a mesma resposta: se para alguns austeridade é um grande defeito, para outros é uma virtude e para mim esse adjetivo só aumenta minha responsabilidade na busca da coerência. Perdoem-me, mas eu acho esse modo de julgar muito parecido com o dos relaxados. Peço a Deus essa austeridade não seja maior que minha ternura a minha ternura não seja menor que minha sensibilidade para que eu continue sabendo ouvir os gemidos do coração de cada ser humano que se me aproxima. Ternura e vigor caminham juntos que o Senhor não me retire a capacidade de chorar com aquela criança que ficou órfã, com aquela mulher que ficou viúva, com aquele jovem para quem a vida não tem mais sentido. Que eu continue debruçando sobre cada moribundo na UTI dos hospitais ungindo cada um e sendo para ele a presença terna de Deus-amor e da Igreja mãe. Espero que em nome da austeridade que tanto me custa, eu continuo colocando meus ombros, meu colo, meus ouvidos minha voz e todo o meu ser à disposição dos corações feridos e de todos que vierem ao meu encontro. Que em nome desta austeridade que a tantos incomoda, meu sim seja sempre sim e meu não sempre não, mesmo quando tiver que contrariar interesses humanos.
FN: Quais são suas considerações finais?
Padre Joaquim:
Agradeço a este jornal pela oportunidade deste diálogo e me coloco à disposição para outras conversas. Desejo a todos os leitores de FN uma semana santa vivida na perspectiva da páscoa de Cristo, a nossa páscoa.

quinta-feira, 7 de junho de 2012


   
Liturgia: Momento Histórico da Salvação. Do normativo rubrical ao teológico litúrgico.
Pe. Joaquim Cavalcante
Considerando que o movimento litúrgico deu um a grande contribuição para o surgimento da Enciclica Mediator Dei, e que esta deu grande substrato à Sacrosanctum Concilium, é justo mencionar alguns passos e avanços que precederam o Concilio Vaticano II.
 Depois da Mediator Dei e antes da Sacarosactum Concilium
Podemos dizer que houve uma primavera litúrgica marcada por algumas mudanças de caráter normativo pastoral. Tais como:
 a) A restauração da vigília pascal, em 1951.
b) A introdução da missa vespertina e nova disciplina para o jejum eucarístico, em 1953.
c) A publicação do decreto de simplificação das rubricas do Missal e do Breviário, em 1955.
d) A publicação do o Novo Rito da Semana santa, em 1955 e a instrução sobre a música na liturgia.
A atenção e os encaminhamentos dados Pelo Papa Pio XII favoreceram o desenvolvimento da teologia litúrgica do Concílio Vaticano II.
A partir do horizonte pastoral das mudanças que foram surgindo vai sendo construída a teologia da Sacrosanctum Concilium. É uma teologia centrada na hermenêutica litúrgico-pastoral.
Com o passar do tempo, percebe-se hoje, uma teologia mais litúrgica e uma liturgia mais teológica. A norma, por demais necessárias, não deve aparecer desprovidas ou fora desses dois sentidos.
O que tem aparecido nesses últimos anos? Duas tendências:
A primeira é marcada pelo o domínio do subjetivismo litúrgico, isto é, cada um faz o que achar mais conveniente.
Ora, o texto do Concilio é claro e enxuto, apresenta o essencial, mas na liturgia foi entrando certo subjetivismo sem fundamento litúrgico e teológico que deforma o espírito da Sacrosanctum Concilium.

A segunda tendência é o domínio de um rigorismo normativo rubricista. Essa tendência muitas vezes aparece carente de sensibilidade pastoral e teológica.

 Mais do que nunca, devemos deixar ressoar a beleza e grandeza da liturgia. A liturgia é uma fonte preciosa. Dela exala a fragrância da Palavra do Senhor.    

A liturgia é a salvação em ação gerundial. Todo o mistério da liturgia transpira a salvação. A Palavra e o espaço litúrgico com o odor do incenso, o som das vozes e da harmonia da música, tudo isso acompanhado dos gestos e dos símbolos refigura a presença do Logos que vai se dando benevolamente como outrora se deu na plenitude dos tempos.

Liturgia é essencialmente alteridade que interpela e inclui na mais absoluta gratuidade do amor que se dá no mistério do rito que evidencia a economia divina no hoje da história. Por isso a liturgia é compreendida como momento histórico da salvação.

A liturgia é mistério fontal. A fonte é a dilatação permanente da gratuidade. A fonte não sabe de si, ela se dá no silêncio com a pureza que ela brota por entre as fendas de uma rocha ou do ventre da terra. Por isso a liturgia é sempre uma grandeza de fundo e uma beleza fascinante e transparente.

A liturgia é momento histórico da salvação porque é tempo e lugar privilegiados onde a comunhão é experimentada, Deus é glorificado e o gênero humano é santificado. A liturgia é ação integradora dos mistérios da vida e da fé.

Nada na liturgia pode transcorrer separado ou paralelo à vida e à fé. A essência da liturgia é expressar e construir a comunhão. Por si mesmo, ela refuta qualquer tendência de privatização intimista ou subjetivismo dispersivo.

Na história nossa de cada dia se dá a história concreta da salvação. Isso pede seriedade e perfeita integração entre nosso modo de viver e nosso modo de celebrar.
(Lex credendi e vivendi = lex celebrandi).
A liturgia é momento histórico da salvação porque toda história é impregnada da salvação em cada ação litúrgica.

A Santíssima Trindade e a Igreja operam na liturgia atualizando a salvação no mundo. Isso faz a liturgia, ao longo da história da salvação, ser compreendida como evento de salvação.

Celebrar é presentificar a salvação, é atualizar o encontro com Deus e com os irmãos. Para isso urge uma teologia litúrgica estribada no espírito da Sacrosactum Concilium que ajude a superar o rubricismo que não favorece a participação consciente, ativa e frutuosa. Porém, a Sacrossanctum Concilium deve ser lida e aplicada à luz das demais constituições conciliares: (LG, GS, DV).

A celebração litúrgica é o ponto de confluência da existência humana com a presença e a essência divina. Não se começa ser cristão por um encontro ético ou uma grande ideia e sim por fascinação – por uma decisão pessoal (Documento de Aparecida). Toda existência é interpelada pela beleza do mistério divino.

Convém investir na formação litúrgica dos futuros ministros ordenados e de todos o povo de Deus. Devemos celebrar bem e exercer bem nossa função litúrgica, porque somos um povo sacerdotal.

A liturgia tem que encantar, mas quem não se encanta pelo que faz não ama o que faz. A participação litúrgica não pode e nem deve ser confundida com subjetividade arbitrária e diversão religiosa de mau gosto. Isso seria o cúmulo da involução litúrgica.

Infelizmente, muitos os católicos não participam da Eucaristia dominical, não por falta de presbíteros, muitas vezes por falta de boa vontade.  Por isso muitos são vulneráveis na fé.

Dizia Dom Armando no Seminário Nacional de Liturgia: “sem a participação na Eucaristia dominical e preceitual não há um discípulo missionário autêntico”. Alguns querem a celebração ritualista e privada, mas o Concilio ensina que ela deve ser inteligível e para todos.

A liturgia como momento histórico da salvação é: mistério celebrado, páscoa atualizada no rito da fé professada em ação celebrativa e vivencial.

O mistério pascal torna presente o mistério da fé e o escatológico torna se presente no temporal. Assim, toda a celebração litúrgica deve ser compreendida como a diafania ou desvelamento do mistério. Mistério que na Igreja com seus Sacramentos é o prolongamento da presença de Cristo ressuscitado na história. Todo o agir de Cristo na história, antes da sua morte, passou para os sacramentos. (Leão Magno).

Os sacramentos são constitutivos da fé da Igreja. Por isso a liturgia não é outra coisa que a profissão sonora da fé. Toda ação litúrgico-sacramental é obra da Trindade e da Igreja. Por essa razão, a maior adoração é deixar se embebecer da celebração na sua divina e singela beleza.

Considerações finais:
  O Prof. Andrea Grillo disse em uma das suas conferências durante o Seminário Nacional em Itaici, que há quatro coisas que não podemos esquecer e, como sabemos, recordar é manter as coisas no topo da memória.
1. A liturgia é ação ritual não somente exercício de um direito ou de um dever.
Portanto, não pode ser reduzida a um mero controle “para evitar abusos que devem ser absolutamente evitados”. A liturgia é a o ícone da gratuidade do mistério salvífico que se dá na ação ritual. Como ação ritual a liturgia é a sinfonia que narra, glorifica e exalta os feitos de Deus no mundo e santifica as pessoas. (nesse sentido, a celebração eucarística é, por excelência, rito de santificação, porque é rito que transforma).

2. A liturgia       experiência de comunhão não somente experiência pública ou privada.
É preciso resgatar os fundamentos da teologia litúrgica para se chegar à compreensão da liturgia como "experiência de comunhão". Deve-se priorizar a celebração comunitária (SC, 27). Não basta fazer da liturgia uma ação pública, é preciso que ela favoreça uma profunda experiência de comunhão entre os que dela participam.
3. A liturgia é tempo festivo/doado a ser vivido na dinâmica da gratuidade recíproca.
Tempo festivo e doado não significa tempo livre ou tempo dedicado ao fazer. A gratuidade da liturgia pede abertura e generosidade para dar e receber. A natureza da gratuidade vai além do direito e do dever. A liturgia é tempo doado porque é a festa da fé. É Tempo festivo e “tempo festivo é transgressão do tempo homogêneo e irreversível- que o relógio exalta de maneira suspeita- é representação da origem graciosa e gratuita do tempo” (A.Grillo).
 4. A liturgia é-"fonte e cumenão só meio ou função.
Não podemos fazer desse princípio um mero refrão de uma retórica insuportável.Afirmar que a liturgia é cume e fonte de toda a ação da Igreja, significa que a liturgia não é "mídia"! Que as razões de sua simbólica e de sua ritualidade, não estão a serviço de outra coisa e sim coincidem com a comunhão com Deus, não na sua totalidade histórica e escatológica, mas, na sua antecipação e em sua plenitude, em seu início e em seu fim” (A.Grillo).
Creio que esses quatro pontos nos remetem para uma hermenêutica litúrgica infinitamente maior que os parâmetros limitados de uma compreensão do sentido da liturgia como direito e dever.  Liturgia é dom para ser celebrado comunitariamente como a festa escatológica antecipada no tempo. Pois toda liturgia terrena é antegozo da liturgia celeste.
 Que as celebrações dos 50 anos do Concílio Vaticano II potencie a fé e a práxis das nossas comunidades para que nossas celebrações expressem e atualizem o dom da salvação que o Pai nos oferece, por Cristo, na ação fecunda do Espírito Santo que, com a Igreja e na Igreja, é o artífice da liturgia. Amém!   

quinta-feira, 17 de maio de 2012


A estrutura, ensinamentos e teologia da Sacrosanctum Concilium
A) Estrutura: A Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a sagrada liturgia é constituída por um proêmio e sete capítulos divididos em partes ou artigos somando um total de 130 números. Vamos conhecer os capítulos e o que cada um deles trata. Depois do proêmio com seus 4 artigos, aparece o primeiro capítulo com suas 5 partes e uma relevante densidade teológica.
Capítulo I: Princípios gerais para a reforma e incremento da sagrada liturgia
Esse capítulo é composto por cinco partes subdivididas em 46 artigos, a saber:
I – Primeira parte: Princípios gerais para a reforma e incremento da sagrada liturgia.
1.1. A natureza da liturgia n 5.
1.2 . A obra da salvação continuada pela Igreja realiza-se na liturgia n 6
1.3. Presença de Cristo na liturgia n 7.
1.4. Liturgia terrestre e liturgia celeste n 8.
1.5. A liturgia não é a única atividade da Igreja n 9.
1.6. A liturgia é cimo e a fonte da vida da Igreja n 10.
1.7. Necessidade das disposições pessoais n 11.
1.8. Liturgia e oração pessoal n 12.
1.9. Os atos de piedade inspiram-se na liturgia n 13.
II- Segunda parte: Necessidade de promover a formação litúrgica e a participação ativa n 14.
1.10. Formação dos professores de liturgia n 15.
1.11. Ensino da liturgia n 16.
1.12. Formação litúrgica dos candidatos ao sacerdócio n 17.
1.13. Ajudar os sacerdotes no ministério n 18.
1.14. Formação litúrgica dos fiéis n 19.
1.15. Meios audiovisuais na liturgia n 20.
1.16. Reforma da sagrada liturgia n 21.
III- Terceira parte:  Reforma da sagrada liturgia, normas gerais
1.15. A regulamentação litúrgica compete à hierarquia
1.16. Tradição e progresso
1.17. Bíblia e liturgia
1.18. Revisão dos livros litúrgicos
1.19. Normas que derivam da natureza hierarca e comunitária da liturgia
1.20. Deve-se preferi a celebração comunitária
1.21. Decoro da celebração litúrgica
1.22. Participação ativa dos fiéis
1.23. Liturgia e classes sociais
1.24. Normas que decorrem da natureza didática e pastoral da liturgia
1.25. Harmonia dos ritos
1.26. Bíblia, pregação e catequese litúrgica.
1.27. A língua litúrgica
1.28. Normas para adaptação à índole e tradições dos povos
1.29. Como proceder à adaptação litúrgica na diocese e na paóquia
IV – Quarta Parte: incremento da vida litúrgica na diocese e na paróquia. Esta parte é formada somente por dois pequenos artigos n.  41-42.
V_ Quinta parte: incremento da ação pastoral litúrgica
1.30. Comissão nacional de liturgia
1.31. Comissão litúrgica diocesana
1.32. Outras comissões



Capítulo II: O Mistério eucarístico.
2.1. A missa e o mistério pascal
2,2. A participação ativa dos fiéis na missa
2.3. Revisão do ritual da missa
2.4. Maior riqueza bíblica na missa
2.5. A homilia
2.6 A oração dos fiéis
2.7. Latim e língua vernácula na missa
2.8. Comunhão sob as duas espécies
2.9. A unidade na missa
2.10. A concelebração

..........................
Capítulo III: Os outros sacramentos e sacramentais
3.1. A natureza dos sacramentos
3.2. Os sacramentais
3.3. Necessidade de reformar os ritos sacramentais
3.4. A língua
3.5. O Catecumenato
3.6. Revisão do rito batismal
3.7. Revisão do rito da confirmação
3.8. O sacramento da unção dos enfermos
3.9. Revisão do rito das ordenações
3.10. Revisão do rito do matrimônio
3.11. Revisão dos sacramentoais
3.12. A profissão religiosa
3.13. Revisão dos ritos fúnebres

Capítulo IV: Ofício Divino
4.1. O oficio divino obra de Cristo e da Igreja
4.2. Valor pastoral do oficio divino
4.4. A estrutura tradicional seja revista
4.5. Normas para a revisão do oficio divino
4.6. Oficio divino fonte de piedade
4.7. Distribuição dos salmos
4.8. Ordem das leituras
4.9. Revisão dos hinos
4.10. Quando rezar as horas
4.11. Obrigação ao oficio divino
4.12. Recitação comunitária do ofício divino
4.13. A participação dos fiéis no oficio divino
4.14. A língua no oficio divino

Capítulo V: Ano Litúrgico
5.1. O sentido do Ano litúrgico
5.2. Revalorização do domingo
5.3. A Quaresma
5.4. As festas dos santos

Capítulo VI: A música sacra
6.1. Dignidade da música sacra
6.2. A liturgia solene
6.3. Formação musical
6.4. Canto gregoriano e polifônico
6.5. Canto religioso popular
6.7. A música sacra nas missões
6.8. Missão dos compositores


Capítulo VII: Arte sacra e alfaias litúrgicas
7.1. Dignidade da arte sacra
7.2. A liberdade de estilos artísticos
7.3. Formação dos artistas
7.4. Revisão da legislação sobre a arte sacra
7.5. Resão da legislação sobre a arte sacra
7.6. formação artística do clero
7.7. As insígnias pontificais



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Introdução Geral e aceno histórico
Em 25 de Janeiro de 1959, festa da conversão de São Paulo, o Papa João XXIII surpreendia a Igreja e o mundo convocando um novo Concílio. O anúncio foi feito exatamente na Basílica de São Paulo Extramuros. Ninguém esperava por isso.  Há poucos meses tinha sido eleito Papa e já tinha 77 anos. Foi o início de uma renovação, ainda em curso.
No dia 11 de outubro, 1962, o Papa João XXIII abre solenemente, na Basílica de São Pedro, o Concílio Vaticano II. Disse o Papa no discurso de abertura: “Alegra-se a santa Mãe Igreja, porque, por singular dom da Providência divina, amanheceu o dia tão ansiosamente esperado em que solenemente se inaugura o Concílio Ecumênico Vaticano II...”.
A Constituiçaõ Sacrosanctum Concilium do Concilium Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia foi o primeiro documento aprovado pelos Bispos conciliares. Foi o primeiro fruto do Concilio.
A constituição SC é constituída por um proêmio e sete capítulos. Formando um total de 130 artigos.  Segundo Dom Clemente Isnard, todos os assuntos que dizem respeito à vida litúrgica foram incluídos e contemplados nesses sete capítulos.
Introdução específica ao conteúdo do Documento
O proêmio
1. Os Bispos colocam evidente a intenção do Concílio “O Sagrado Concílio, propondo-se fomentar sempre mais a vida cristã entre os fiéis... julga ser sua obrigação ocupar-se também da reforma e do incremento da liturgia”.
2. Em seguida fala sobre o lugar da liturgia no mistério da Igreja. Por meio da liturgia, a Igreja atualiza a obra da redenção. Destaca a natureza da Igreja que é humana e divina e da liturgia como fonte que revigora as forças dos fiéis para pregarem o Cristo...
3. Fala sobre a Constituição sobre a liturgia e os outros ritos. O Concilio “julga oportuno relembrar os princípios referentes ao incremento e a reforma da liturgia e estabelecer algumas normas práticas”.
4. Apresso por todos os ritos legitimamente reconhecidos. O Concílio declara que a Igreja  considera  com igual direito e honra todos os ritos legitimamente reconhecidos quer conservá-los e incrementá-los  que tais ritos sejam revigorados como exigem as condições e as necessidades dos tempos atuais.





B) Ensinamento e teologia da Sacrosanctum Concilium
1.1. A natureza da liturgia e sua importância na vida da Igreja. Esse tema vai do n. 5-13. Sendo que do n. 5-8 trata-se especificamente da natureza da liturgia. Esses números são densos de uma verdadeira teologia e nos dão a compreensão da teologia litúrgica.  
O mistério pascal centrado na paixão, morte, ressurreição e ascensão é o núcleo constitutivo da liturgia, é o fulcro da mística cristã.
Cristo é o centro e, ao mesmo tempo, o Mediador de toda ação litúrgico-sacramental. Mas estão presentes nesses números os elementos pneumatológicos, eclesiológicos e teoantropológicos . 
Pela presença e mediação de Cristo, a Igreja, na força do Espírito, atualiza o mistério pascal, que é o mistério da nossa redenção faz acontecer a perfeita  glorificação de Deus e  a santificação do gênero humano.  A liturgia é a forma ritualizada por meio da qual Deus opera e atualiza a economia da salvação no mundo.
Chamo a atenção para o n.7 da SC, ele fala da presença atuante e vivificante de Cristo na Igreja e, de forma especial, na liturgia.  São 5 tipos  ou maneiras de presença real de Cristo.  Não podemos deixar que a presença do Senhor passe despercebida entre nós.
 1) Sob as espécies eucarísticas. Esta formas é presença por antonomásia, como disse o Papa Paulo VI  no Documento Mysterium Fidei,39.  A eucaristia presentifica todo o mistério de Cristo, isto é, Deus e homem.
2) Está presente na pessoa do ministro. “Pois aquele que agora se oferece pelo ministério sacerdotal é o mesmo que, outrora, se ofereceu na cruz...”.
3)  Está presente nos sacramentos. “De tal modo que, quando alguém batiza é o próprio Cristo quem batiza”. Na liturgia, a Igreja sacramentaliza a presença e ação salvífica de Cristo na história.
4) Está presente na Palavra de Deus. “Pois é ele quem fala quando na Igreja se leem as Sagradas Escrituras”.
 5) Por fim, Cristo está presente quando a Igreja ora e salmodia . “Ele que prometeu:  onde se acharem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” Mt 18,20. = (lembremos-nos da presença sacramental de Cristo na assembleia litúrgica e na pessoa de cada batizado em oração).
A liturgia é cume para o qual se dirige a vida da Igreja e fonte donde emana toda sua força (SC, 10). Todo o agir da Igreja converge para a liturgia e da liturgia emana toda a força para o agir da Igreja. Toda evangelização deve levar à celebração e a celebração fortalece a Igreja para o cumprimento da missão que o Senhor lhe confiou. É verdade que a liturgia não esgota a ação da Igreja SC, 9. A pregação precede a celebração. Primeiro evangeliza para depois celebrar os santos mistérios da fé.
A Igreja nasce com a finalidade de continuar, no mundo, a missão de Jesus e, atualizar, na história, a obra por ele inaugurada.

1.2 A formação litúrgica
A Constituição sobre a sagrada liturgia fala, com insistência, da necessidade de promover a formação litúrgica e a participação ativa n.14-20.
“É desejo da mãe igreja que todos os fiéis cheguem àquela plena, consciente e ativa participação na celebração litúrgica... A esta plena e ativa participação de todo o povo cumpre dar especial atenção na reforma e incremento da sagrada liturgia”. A SC ver a liturgia como fonte primeira da espiritualidade cristã. Antes do devocionalismo medieval, a liturgia centrada no mistério pascal de Jesus era a fonte inspiradora do agir, viver e ser. Nele e por ele, nos movemos agimos e somos. O cerne da vida cristã é viver em Cristo e por Cristo. 
É impossível haver participação ativa sem verdadeira formação litúrgica.  A exigência da formação é para os pelos professores de liturgia, os candidatos ao sacerdócio, os que já estão no ministério, e os fiéis. Diz o Concilio: “Com empenho e paciência procurem os pastores de almas dar a formação litúrgica e promovam também a participação ativa dos fiéis, tanto interna como externa, segundo a sua idade, condição, gênero de vida e grau de instrução religiosa...” (SC, 19).
Menciona-se ligeiramente a necessidade de maior discrição e dignidade em relação aos meios audiovisuais e liturgia.
Como podemos ver, a  Sacrosanctum Concilium é insistente no que diz respeito à formação litúrgica. Por quê? Porque é a melhor forma de enfrentar e combater a compreensão litúrgica deficiente e decadente.

Nota-se deficiência no que diz respeito à mistagogia e outras dimensões essenciais da liturgia. Percebe-se, em nossos dias, certa tendência marcada por um rigorismo legalista que engessa e mata o espírito do Concílio.

Por outro lado, há laxismo personalista que banaliza o mistério da liturgia. A mídia católica pode ajudar muito na formação litúrgica, basta assumir o espírito do Concílio.

Falando no Seminário nacional de Liturgia, Frei José Ariovaldo dizia:corremos o risco de continuarmos no espírito cultual da cristandade medieval e pós-tridentina, com alguma tintura moderna apenas, mas longe do Espírito do Senhor, longe do centro da nossa fé (do mistério pascal de Jesus Cristo que nos empenha a um compromisso comunitário na vivência da fé)”.  

De fato, penso que nenhuma devoção se sobrepõe à celebração eucarística. A Eucaristia é celebração memorial do sacrifício pascal de Cristo que nos libertou e continua nos libertando do pecado.

 É grave a tentação de reduzir a compreensão teológica da celebração do mistério pascal do Senhor a um mero evento psicoterapêutico com as chamadas missas de cura.

Quando subvertemos a compreensão teológica da celebração sacramental dos mistérios da nossa redenção, corremos o risco de profanar a Eucaristia com certas práticas litúrgicas.

Ora, ser curado é ser salvo do pecado e suas consequências. A celebração eucarística é a salvação presente no momento histórico de cada comunidade que celebra os mistérios da fé.  Nossa práxis celebrativa não pode comprometer o espírito da reforma litúrgica.

 1.3 A Reforma da sagrada liturgia n 21-40.
“A liturgia compõe-se de uma parte imutável, porque de instituição divina, e de partes susceptíveis de mudanças”. Por isso o Concilio estabeleceu  que a regulamentação litúrgica compete à hierarquia  ou a autoridade da Igreja (SC, 22). Isto é a Sé Apostólica e ao Bispo Diocesano. 
A compreensão teológica do mistério da liturgia passa pela compreensão mistério da Igreja como “sacramento de unidade” e povo santo de Deus “reunido e ordenado sob a direção dos bispos” (SC, 26).
O decoro da celebração litúrgica é lembrado com a exortação de que na celebração cada um faça o que lhe compete.
1.4 O incremento (o desenvolvimento) da vida litúrgica na diocese e na paróquia n 41-42.
A vida litúrgica da diocese gravita em torno do bispo. O verdadeiro rosto da Igreja como corpo de Cristo cabeça e membros se dá na liturgia presidida pelo bispo rodeado pelo seu presbitério pelos seus ministros e todo o povo santo de Deus (SC 41).
As paróquias representam a Igreja espalhada pelo mundo inteiro. A vida litúrgica da paróquia e sua relação com o bispo devem ser cultivadas no espírito e no modo de agir dos fiéis e do clero (SC 42).
A paróquia é o núcleo que da visibilidade a Igreja espalhada por toda a terra. É na paróquia que se dá o cultivo intenso da vida litúrgica. Por isso ela é, com suas redes de comunidades, o centro irradiador da vida eclesial.
1.5 Como promover a ação pastoral litúrgica.
O Concilio determina que seja criada:
a) Comissão litúrgica nacional formada por “especialistas em liturgia, música, arte sacra e pastoral”. Esta deve ser uma das primeiras iniciativas a serem tomadas no processo de desenvolvimento da ação pastoral litúrgica.
b) Comissão litúrgica diocesana : “haja em cada diocese a Comissão de liturgia  para promover a ação litúrgica sob a orientação do bispo”.
c) Outras Comissões: “instituam-se, em cada diocese, se possível, Comissão de música sacra e arte sacra” (SC, 46). Hoje, temos as Comissões Regionais de liturgia, Comissão Diocesana e setorial. Onde tais Comissões funcionam, a participação ativa, consciente e frutuosa é evidente.
Considerações finais

Gostaria de terminar esta minha fala com o pensamento de um dos conferencistas, em Itaici, sobre os 50 anos da SC. Durante o Seminário Nacional de Liturgia, o professor Anedrea Grilo disse em uma das suas conferências que o Concílio pede uma conversão de linguagem.

Ora, a conversão de linguagem passa pela metanóia mentis et cordis”. A meu ver esta é a tarefa mais exigente para que os ensinamentos do Concílio sejam acolhidos e assimilados pela nossa geração e as gerações futuras.

O ilustre conferencista apontou “quatro coisas a não serem esquecidas, a saber:
 a) que a liturgia é ação ritual,
 b) é experiência de comunhão,
c) é tempo festivo doado (é gratuidade),
d) enfim, é fons et culmen”.

Tudo isso nos faz pensar que a liturgia é objeto de estudo porque é ciência, mas nunca pode ser colocada dentro de uma forma, porque é mistério que se dá. E o mistério torna-se infinitamente maior quanto mais ele se desvela e se dá. A liturgia celebra o mistério da comunhão trinitária que é o mistério de Deus em si mesmo, Pai, Filho e Espírito Santo. A ele honra glória e louvor, pelos séculos dos séculos. Amém!